sábado, 31 de março de 2012

Pesquisa Qualitativa e Interesses do Conhecimento


Florianópolis, 13 de abril de 2011.

Universidade Federal de Santa Catarina.

Oliveiros Dias Jr.

Grupo de Pesquisas em Educação em Saúde.

Pesquisa Qualitativa
e Interesses do Conhecimento.

Muito se discute sobre pesquisa qualitativa e, ou quantitativa, fazendo-se comparações que muitas vezes não levam a lugar algum.  Bauer e Gaskell (2002) afirmam haver muita confusão metodológica nessa comparação, confundindo coleta e análise de dados com princípios do delineamento da pesquisa e interesses do conhecimento. Estes mesmos autores sugerem que a escolha entre quantitativa ou qualitativa é prioritariamente uma decisão sobre a geração de dados e os métodos de análise e, secundariamente pode ser uma escolha entre o delineamento da pesquisa ou de interesses do conhecimento.

Alguns pontos são apontados como importantes a serem lembrados num trabalho de pesquisa científica (Bauer e Gaskell, 2002):
- não há quantificação sem qualificação (ou categorização);
- não há análise estatística sem interpretação;
- o pluralismo metodológico dentro do processo de pesquisa vai além da lei do instrumento;
- a ordenação no tempo - previsão, levantamento, análise, interpretação (de dados) e comunicação dos resultados;
- um discurso independente dos “padrões de boa prática”;
- cuidar da retórica observando o logos, o pathos e o ethos da persuasão (Leach apud Bauer e Gaskell, 2002), lembrando que os métodos e os procedimentos são o meio científico de prestação pública de contas com relação à evidência (Habermas apud Bauer e Gaskell, 2002);
- interesses do conhecimento e métodos (Habermas, 1987);
- a autenticação, a crítica e a possibilidade de uma ação emancipatória.

Quando se domina muito uma ferramenta (ou instrumento) é tendência a utilizar a mesma ferramenta para resolver problemas de ordens diversas, essa é a lei do instrumento, que deve ser transcendida pelo pesquisador.

Afirmações como “explicamos a natureza, compreendemos a vida mental”(Dilthey apud Günter, 2006) e que “métodos quantitativos e qualitativos são mais que diferentes estratégias de pesquisa e coleta de dados, mas, que representam, fundamentalmente diferentes referenciais epistemológicos para teorizar a natureza do conhecimento” (Filstead apud Bauer e Gaskell, 2002) estão nas origens da discussão entre as abordagens qualitativa e quantitativa, discussão essa considerada infrutífera.

Sobre os critérios de qualidade de pesquisa, para Günther (2006) a abordagem qualitativa, por ser mais recente, ainda carece de critérios bem claros e delineados. Agregando as considerações de vários outros pesquisadores - Grunenberg, Mayring, Miles e Huberman e Steinke - Günther formulou critérios de qualidade para a pesquisa qualitativa sob forma de perguntas:

- As perguntas da pesquisa são claramente formuladas?
- O delineamento da pesquisa é consistente com o objetivo e as perguntas?
- Os paradigmas e os construtos analíticos foram bem explicitados?
- A posição teórica e as expectativas do pesquisador foram explicitadas?
- Adotaram-se regras explícitas nos procedimentos metodológicos?
- Os procedimentos metodológicos são bem documentados?
- Adotaram-se regras explícitas nos procedimentos analíticos?
- Os procedimentos analíticos são bem documentados?
- Os dados foram coletados em todos os contextos, tempos e pessoas sugeridos pelo delineamento?
- O detalhamento da análise leva em conta resultados não-esperados e contrários ao esperado?
- A discussão dos resultados leva em conta possíveis alternativas de interpretação?
- Os resultados são - ou não - congruentes com as expectativas teóricas?
- Explicitou-se a teoria que pode ser derivada dos dados e utilizada em outros contextos?
- Os resultados são acessíveis, tanto para a comunidade acadêmica quanto para os usuários no campo?
- Os resultados estimulam ações - básicas e aplicadas futuras?


Günther (2006) afirma que um pesquisador classificado como quantitativo dificilmente exclui o interesse em compreender as relações complexas e que, tal compreensão é por meio de explicações ou compreensões das relações entre variáveis. O mesmo autor aponta que, “sem dúvida, pode-se conceber as múltiplas atividades que compõem o processo de pesquisa como um ato social de construção de conhecimento”, apontando para outra questão mais importante ainda a ser respondida: “qual a correspondência entre o conhecimento socialmente construído e a realidade alheia?”, ainda supondo aqui a possibilidade que ela existea independentemente do pesquisador. Flick e cols (apud Günther, 2006) apontam a primazia da compreensão como princípio do conhecimento e que a pesquisa é percebida como um ato subjetivo de contrução. Sendo assim, Günther (2006) coloca em dúvida se realmente, na pesquisa quantitativa, crenças e valores pessoais não são consideradas fontes de influência no processo científico.

Neves (1996) afirma que o arcabouço de interpretação empregado pelo pesquisador, que lhe serve de visão de mundo e de referencial determina o vínculo entre signo e significado, conhecimento e fenômeno e serve para estabelecer caminhos de pesquisa de tal forma que os esforços de cunho qualitativo e quantitativo podem se complementar, onde uma mistura de procedimentos de cunho racional e intuitivo são capazes de contribuir para uma melhor compreensão dos fenômenos. Citando Pope & Mays, Neves (1996) afirma ser possível a distinção entre os enfoques qualitativo e quantitativo, mas não seria correto afirmar que guardam uma relação de oposição. Segundo Neves (1996) a combinação das técnicas quantitativas e qualitativas torna uma pesquisa mais forte. Esta combinação recebeu diversos nomes: triangulação (Jick apud Neves, 1996); validação convergente ou multimétodo (Fiske apud Neves, 1996); triangulação simultânea e triangulação seqüenciada (Morse apud Neves, 1996).

O ideal científico que descreve e explica a natureza sem a utilização de uma retórica adequada, é cada vez mais desafiado pela visão da realidade presente na comunicação no meio dos cientistas e entre estes e o público. O dever da ciência tem obscurecido o ser da ciência. A comunicação é um processo essencial da atividade científica e isto implica na persuação dos ouvintes. Leach (apud Bauer e Gaskell, 2002) através da análise retórica aponta a base da persuação em três pontos - o logos, o pathos e o ethos. O logos se refere à pura lógica do argumento em suas várias formas. O pathos refere-se às formas de apelo e o reconhecimento dado à audiência considerando-se a psicologia social das emoções.O ethos trata das referências explícitas e implícitas na situação de quem fala, que estabelece a credibilidade e a legitimidade no falar o que está sendo dito. Convencer os pares, as agências financiadoras, o público sobre os resultados da pesquisa sempre envolve esse tripé da persuasão, seria ingênuo se pensar que simplesmente ideal científico, o logos, o argumento sejam suficientes sem o pathos e o ethos.  

Há muito se discute sobre os objetivos e resultados da pesquisa assim como os interesses reais por detrás da mesma, se puramente o conhecimento, o controle ou a emancipação social. Refletir sobre tais temas é essencial para uma crítica à própria ciência que se faz. Sempre se coloca a pesquisa quantitativa a serviço do controle e a pesquisa qualitativa, que dá voz às pessoas como emancipatória, uma dicotomia, mais uma vez, não verdadeira nem de alguma utilidade. Bauer e Gaskell (2002) vão referir-se à filosofia de Jürgen Habermas apresentada em Knowledge and Human Interests (Conhecimento e Interesses Humanos, 1987), daqui pra frente referida somente como Habermas.

Habermas identifica três “interesses do conhecimento”, compreendê-los dá sentido à prática da ciência social e das suas conseqüencias para a sociedade. A chave para tal compreensão, ao contrário do que se pensa, não está nas orientações intencionais e epistemologicamentes conscientes dos cientistas, os interesses do conhecimento estão antropologicamente sedimentados. Argumenta que desde Kant, “constrói-se o próprio caminho sobre estágios abandonados de reflexão”, com o predomínio do positivismo, a filosofia não compreende a ciência, já que a própria ciência se constituiu como a única forma de conhecimento que o positivismo admite como crítica, algo como o falsificacionismo de Popper. Faz-se necessária uma auto-reflexão crítica, pela qual a ciência pode se tornar capaz de autocompreensão (não-cientística), sendo capaz de revelar as condições que possam impedir uma prática de pequisa crítica e emancipatória. Os três constitutivos do conhecimento, segundo Habermas, estão na base das ciências “empírico-analíticas”, histórico-hermenêuticas” e “críticas”.

As ciências “empírico-analíticas”, se relacionam com a luta perpétua para o controle do mundo natural, ou seja, têm o interesse no controle técnico, procurando produzir conhecimento nomológico. É um modelo que pode ser visto em muita pesquisa social quantitativa.

As ciências histórico-hermenêuticas vêm de um interesse prático no estabelecimento do consenso, sendo imperativo a compreensão intersubjetiva fidedigna. A Verstehen (compreensão hermenêutica) visa restaruar canais rompidos de comunicação. Num primeiro nível, a comunicação entre a experiência de um indivíduo e a tradição à qual ele pertence. Num segundo nível da esfera de comunicação, acontece entre os diferentes indivíduos, grupos e tradições. Sendo a falta de comunicação um problema perpétuo e onipresente no mundo social, restabelecer esta comunicação também se torna um problema da mesma ordem. O consenso é fluido e dinâmico, conseguido através de uma interpretação que evolui historicamente, orientada a apreender a realidade social que constitui o “interesse prático” das ciências hermenêuticas - “cuja finalidade (não dita) é estabelecer as normas comuns que tornam a atividade social possível”. Habermas afirma que

“uma crítica bem-sucedida é a que explica os fenômenos sob investigação com mais sucesso do que as teorias aceitas até o momento. E ao fazer isto, ela deve desafiar pressupostos que até o momento tinham sido aceitos acriticamente.”

Assim, ao assumir-se um enfoque qualitativo, seja fenomenológico, socioconstrucionista ou qualquer outro, corre-se o risco de substituir-se acriticamente os próprios pressupostos pelos dos informantes.

Os interesses emancipatórios das chamadas “ciências críticas” por Habermas, não exclui mas transcende as ciências empírico-analíticas ou as de entendimento hermenêutico. Os interesses emancipatórios fornecem o referencial para ir além do conhecimento nomológico e das Verstehen, sendo

“através de um processo auto-reflexivo que as ciências críticas podem chegar a identividar estruturas condicionadoras de poder que, acriticamente se mostram como “naturais” mas são, de fato, o resultado de uma “comunicação sistematicamente distorcida e de uma repressão sutilmente legitimada”

Como afirmam Bauer e Gaskell (2002), mais importante que a escolha da técnica empregada, a prontidão dos pesquisadores em questionar seus próprios pressupostos e as interpretações subseqüentes de acordo com os dados, juntamente com o modo como os resultados são recebidos e por quem são recebidos, são fatores muito mais importantes para uma ação emancipatória. Igualmente Pereira (1999), alerta que ao assumir premissas, o que é inerente à estrutura do conhecimento científico, condiciona o entendimento do real, repensá-las auxiliam a concepção das estratégias de investigação; distinguir entre ser e atributo, objeto da filosofia, constitui-se em elemento importante para que o pesquisador defina a delimitação do seu objeto de estudo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Bauer, M.W.; Gaskell, G.; Allum, N.C.(2002). Qualidade, quantidade e interesses do conhecimento: Evitando confusões. Em: M.W.Bauer; G.Gaskell (Eds). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: Um manual prático. (pp. 17-36). Petrópolis: Vozes.

Günther, Hartmut. Pesquisa qualitativa versus pesquisa quantitativa: esta é a questão?. Psic.: Teor. e Pesq., Ago 2006, vol.22, no.2, p.201-209.

Neves, J.L. (1996). Pesquisa qualitativa - características, usos e possibilidades. Caderno de Pesquisas em Administração. São Paulo,1996, v.1, n.3, 2o.sem.

Pereira, J.C.R. (1999)l. O dado qualitativo. Em:______. Análise de dados qualitativos: Estratégias metodológicas para as Ciências da Saúde, Humanas e Sociais. (21-42). São Paulo: Editora Universitária.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Tai Chi Chuan & Wudang Chi Kung


 

AULAS DE TAI CHI CHUAN E CHI KUNG

UFSC 2013

(Eucaliptos do Bosque do CFH / Centro de Convivência):


AVISO IMPORTANTE

As turmas estão sendo formadas. 
3as feiras (horário a resolver)
5as feiras das 15 as 16h.

Estão previstas atividades extra-classe
 (caminhadas nos finais de semana e
 seminários sobre filosofias do oriente)


Praia da Armação :

Domingos nas Campanhas da Armação (a combinar).

(ilhota entre as praias da Armação e Matadeiro)

Se vocêm tem interesse em aulas particulares ou em grupo, coloque suas sugestões aqui ou mande por email.

Primeira aula grátis.

OLIVEIROS.


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terça-feira, 26 de julho de 2011

BUDISMO E PSICANÁLISE

Florianópolis, 4 de julho de 2011.

Universidade Federal de Santa Catarina.
Departamento de Psicologia.
Escolas Psicológicas III - Psicanálise.

Prof.  Fernando Aguiar Brito de Sousa.

Oliveiros Dias Jr.

Budismo e Psicanálise


Introdução

    O budismo e a psicanálise, duas escolas, dois empreendimentos humanos. O primeiro com 2500 anos. O segundo com pouco mais de 100 anos. Tão distantes no tempo e no espaço, nascidos em contextos históricos e sociais tão diferentes, certamente possuem diferenças. Ainda assim, apresentam pontos de convergência bem interessantes. O sofrimento leva o homem a refletir sobre si mesmo e sobre a origem e o cessamento do sofrimento. Tanto o budismo como a psicanálise estudaram sistematicamente sobre esse tema.

Encontros entre budismo e psicanálise

    Bezerra (2011) aponta quatro pontos de encontro importantes entre o budismo e a psicanálise: a teoria parte da experiência, a ênfase na ação, o horizonte ético e a perspectiva ecológica.
    O budismo e a psicanálise partem da experiência para estudar a natureza e o funcionamento do eu. Buscam melhores alternativas para lidar com as dificuldades encontradas no dia a dia. Há um colorido fenomenológico porque o centro não é de natureza objetiva mas a descrição da experiência de si em relação com o mundo.
    A despeito da sofisticação e complexidade de suas teorias, budismo e psicanálise são saberes fundamentados na prática, são formas de intervenção na existência. O sofrimento impele o homem a transformar sua existência, torná-la mais interessante, procurando descrever e compreender a si, o mundo e sua vida.
    Budismo e psicanálise não separam a ética da epistemologia. A prática e a reflexão teórica apontam para a necessidade de mudança nos referenciais adotados para conceber e viver a vida. Conhecer-se para transformar-se, construir uma vida mais criativa e livre de condicionamentos. É semelhante ao que ocorre com a análise, quando auxilia o sujeito a se reorganizar psiquicamente, transformando o posicionamento deste frente às situações, aos seus desejos, ideais e às expectativas que incidem sobre ele.
    Incompatíveis tanto com descrições mentalistas, quanto com o reducionismo materialista, o budismo e a psicanálise compartilham de uma mesma perspectiva ecológica onde psique, cérebro e mundo são aspectos de uma mesma realidade, imbricados uns nos outros, interagindo e influenciando reciprocamente o tempo todo. Da ação do corpo no ambiente emerge a experiência subjetiva, que é inserida corporalmente, ancorada no mundo físico e simbólico, sustentando, assim, uma relação permanente de afetação recíproca.

A possibilidade de uma ipseidade destituída de uma identidade permanente

    A psicanálise é tida como uma prática voltada para a ampliação da capacidade normativa do sujeito (Bezerra, 2011). Na perspectiva de Osho (2000) ela está confinada à mente, mergulha fundo nesta, mas, seu objetivo não é muito elevado, sua meta é manter as pessoas normais, menos infelizes, menos miseráveis, não transforma a consciência do homem no sentido de  uma transcendência desta condição.
    Contemplação e desapego ao eu, realizar e vivenciar a verdadeira natureza do ser, um ser desperto, um buda (termo de origem no sânscrito que significa desperto), viver liberto de toda ignorância e sofrimento. Esta é a proposta da “psicologia” budista. Como disse um mestre do budismo zen do século XIII, Eihei Dogen, “estudar o budismo é estudar a si mesmo; estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo”. Para o budismo, existe a possibilidade que o sujeito tenha uma ipseidade ainda que destituído de uma identidade permanente, sendo possível ao sujeito ser livre do esforço neurótico por manter a coerência com uma identidade imaginária, podendo agir de maneira mais livre no mundo (Sanches e Safra). Aqui está um ponto importante que diferencia o budismo e a psicanálise, faz-se necessária uma análise mais profunda sobre o sofrimento e o “eu” que sofre.

O eu e o sofrimento

    De acordo com Christensen (1999), baseado na teoria psicanalítica de Freud, lidamos com três fontes de sofrimento e algumas alternativas paliativas para lidar com ele. São as fontes de sofrimento: o corpo (doenças, envelhecimento etc.); o mundo externo (com suas forças destrutivas); e finalmente, as nossas relações com os outros homens. Para lidar com isso, relativizamos a situação, procuramos por satisfações substitutivas ou nos fazemos insensíveis abusando de substâncias intoxicantes. Freud (1926 apud Christensen, 1999) indicou algumas fontes principais de sofrimento: perda do objeto; perda do amor e perda física. Este ainda sugere que a ansiedade e a depressão são reações às perdas dolorosas, que levam o indivíduo a procurar prazer e evitar o desprazer. É importante lembrar que Freud (1978 [1910]) já afirmava que os indivíduos adoecem, procurando uma satisfação substitutiva por não conseguir a satisfação primária das suas necessidades eróticas na realidade. Com elevadas aspirações e sob pressão dos recalques, a realidade torna-se insatisfatória e o indivíduo refugia-se na fantasia. Este indivíduo compensa sua insatisfação engendrando realizações de desejos. É bem interessante frisar que para o budismo, o eu está sempre insatisfeito, movido pelo desejo, apoiando-se numa ficção de um eu permanente e independente, o que em si é uma fantasia, uma ilusão (aqui se aplica o termo maya em sânscrito), fonte de sofrimento.
    Bezerra (2011) afirma que para Freud o eu é uma ficção necessária à ação e a experiência de si é uma resultante complexa, inacabada e mutante de um equilíbrio instável em um conjunto amplo de fatores - as exigências conflitantes entre “isso”, “eu” e “supereu” perante os desejos inconscientes, normas sociais internalizadas, mecanismos de defesa e outras demandas. Assim, esse eu é fragmentado, direcionado por forças que não domina, uma estrutura mais ou menos bem sucedida que leva o sujeito a lidar com o desamparo, a angústia e o desejo, a buscar satisfação, enfim, a agir no mundo. O eu também é descrito como uma imagem do reflexo no olhar do outro, daquilo que é suposto poder causar ao outro, configurado por uma trajetória de identificações, posicionamentos subjetivos frente aos outros, configurações somáticas e uma resultante de interações que permitem ao sujeito projetar-se para o futuro. Neste ponto cabe frisar que para o budismo o tempo também é ilusório.

A psicologia budista

    Vários autores ocidentais apontam convergências e divergências entre o budismo e a psicanálise, os mais conhecidos internacionalmente são Erich Fromm e Mark Epistein e, nacionalmente, Benilton Bezerra Jr. No entanto, devido às influências sócio-históricas dos autores ocidentais e as dificuldades na tradução de obras budistas originais, para adentrar na “psicologia” budista, foi escolhido para este trabalho a obra de Ryotan Tokuda (1997) um monge budista zen, graduado (1963) em filosofia budista pela Universidade de Komazawa, Japão e que residiu no Brasil por mais de quarenta anos, dominando os conceitos budistas em vários idiomas: sâncrito, páli, japonês e português.
    De acordo com Tokuda (1997) não existe uma psicologia budista propriamente dita, existe o yuishiki (em japonês) ou vijna matravada (em sânscrito). O yuishiki é estudado através da prática da meditação, é diretamente ligado à ela. Nesta perspectiva o mundo é consciência. Mesmo que não tenha dogmas, o budismo baseia-se em algumas teorias. Aqui vamos nos referir a três teorias: a teoria das características da existência;  as quatro nobres verdades e a teoria dos doze nidanas.
    São quatro as características (ou marcas) da existência: anikka, dukkha, anatman e nirvana. Anikka significa impermanência, ou seja, tudo se transforma constantemente. Assim, todo e qualquer apego gera sofrimento. Dukkha é este sofrimento proveniente do apego, da insatisfação. Daí chega-se à terceira característica, anatman, a não existência de um eu, uma identidade permanente, portanto, a impossibilidade de se dizer meu ou minha. A quarta característica é o nirvana, um estado de extinção da dor, uma paz profunda que o mundo não pode dar nem tirar, quando se chega ao estado de não-eu, não há nada para segurar, para pedir ou fugir.
    Considerada o primeiro sermão do Buda Sakiamuni, realizado logo após seu despertar (por isso buda, que significa desperto), “As Quatro Nobres Verdades”: (1) toda existência é dor (dukkha); (2) toda dor provém do apego, da ignorância; (3) existe uma maneira de  se eliminar o sofrimento e (4) essa maneira é a prática do Caminho (o caminho óctuplo, um conjunto de práticas e ensinamentos budistas). Os sofrimentos primários (principais) são nascer, envelhecer, adoecer e morrer, pois, encaradas sem sabedoria, todas as fases da existência humana são sofrimento. Os sofrimentos secundários: não alcançar aquilo que se deseja e não conseguir ficar longe daquilo que se odeia; a separação daqueles a quem amamos; o encontro com aqueles a quem odiamos.A satisfação dos desejos vem através dos sentidos que nos conectam ao mundo impermanente ao nosso redor. Se gostamos de algo, acabamos por desejá-lo e nem sempre conseguimos e, quando conseguimos, vem a impermanência e leva tudo embora. Sofremos porque desejamos. Desejamos porque sentimos a falta. O sentimento de falta vem da ignorância. O nirvana, a plenitude, o não sofrimento é alcançado pela extinção da ignorância praticando-se o caminho óctuplo, que, resumidamente se entende por:: compreensão correta, pensamento correto, palavra correta, ação correta, vida correta, esforço correto, atenção correta e concentração correta.
    A teoria dos doze nidanas (ou da originação interdependente) é bem complexa para ser tratada aqui, mas, resumidamente, parte de uma seqüência de questões: por que existe o nascimento, envelhecimento e a morte? Por que tudo isso é sofrimento? Por que existimos? O que existe? Por que temos todos os sentidos e a consciência? Por que possuímos uma mente? E assim por diante até que no último elo, onde a teoria responde que tudo é ignorância, ignorância sobre as coisas e sobre nós mesmos. Ignorantes, não vivemos a realidade, as coisas como elas são, o mundo como ele é. Pratica-se o caminho para extinguir a ignorância e atingir a sabedoria, eliminando o sofrimento e alcançando a paz e a felicidade.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Bezzerra Jr., Benilton. Inconsciente e impermanência. Mente e cérebro. São Paulo: Duetto. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/inconsciente_e_impermanencia.html>

Christensen, Laurence W. (1999). Suffering and the dialectical self in buddhism and relational psychoanalysis. The American Journal of Psychoanalysis, Vol. 59, No. 1, 1999. Disponível em <http://www.springerlink.com/content/l01517605hnx3738/fulltext.pdf>

Freud, S. (1910). Cinco lições de psicanálise. In: Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

Osho. (2007). Autobiografia de um místico espiritualmente incorreto. São Paulo: Cultrix, 10 ed.

Sanches, Pedro R. P. ; Safra, Gilberto. Diálogo entre psicanálise freudiana e zen-budismo a respeito do eu, da subjetividade, e da identidade. Instituto de Psicologia - Universidade de São Paulo. 14o. Simpósio Internacional de Iniciação Científica. Disponível em: <http://www.usp.br/siicusp/Resumos/14Siicusp/2616.pdf >

Tokuda, Ryotan. (1997). Psicoloogia budista. Rio de Janeiro: R. Tokuda.

TEXTOS COMPLEMENTARES :

Barros, Maria T. da Costa. (2002).  O despertar do budismo no ocidente no século XXI - contribuição ao debate. Tese apresentada ao Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro para a obtenção do título de Doutor em Saúde Coletiva. Disponível em < http://www.pepas.org/teses/despertar_budismo.pdf>

Cooper, Paul C. (2001). The gap between being and knowing in zen buddhism and psychoanalysis. The American Journal of Psychoanalysis, Vol. 61, No. 4, December 2001. Disponível em < http://www.springerlink.com/content/x4228134055g7227/fulltext.pdf >

Epstein, M. (1995). Thoughts without a thinker: buddhism and psychoanalysis. Psychoanal. Rev., 82:391-406. Disponível em: <http://www.pep-web.org/document.php?id=psar.082.0391a >

Esclapes, Alexandre. O conceito de impermanência no Budismo e na psicanálise. Disponível em: <http://www.monjacoen.com.br/textos-budistas/textos-diversos/309-o-conceito-de-impermanencia-no-budismo-e-na-psicanalise>

Fromm, Erich. (1960). Zen budismo e psicanálise. São Paulo: Cultrix. Disponível em: <http: //pt.scribd.com/doc/32020137/Psicologia-DT-Suzuki-E-Fromm-Zen-Budismo-e-Psicanalise>

Nichol, David. (2006). Buddhism and psychoanalysis. The American Journal of Psychoanalysis, Vol. 66, No. 2, June 2006 ( 2006). Disponível em <http://www.springerlink.com/content/p242343530368030/fulltext.pdf>

Rubin, Jeffrey B. (1999). Close encounters of a new kind: toward an integration of psychoanalysis and buddhism. The American Journal of Psychoanalysis, Vol. 59, No. 1, 1999. Disponível em: < http://www.springerlink.com/content/p0765673g1181x86/fulltext.pdf >

Terêncio, Marlos G. Um percurso psicanalítico pela mística, de freud a lacan. Tese de mestrado em psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Disponível em: <http://www.tede.ufsc.br/teses/PPSI0289-D.pdf>
   

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

LOUCURA E SANIDADE



Havia um mestre sufi rodeado por seus discípulos (D) que lhe perguntavam ao seu mestre (M) sido seu primeiro mestre:

D: Mestre, como você iniciou o seu caminho? Quem foi seu primeiro mestre?
M: Meu primeiro mestre foi um cão.
D: Como?
M: Estava observando um cão sedento à beira de um lago. Quando ele se aproximava da água, via sua própria imagem, rosnava e recuava. Assim ele ficou por muito tempo até que a sede era tanta que se jogou pra dentro do lago e teve toda a água que precisava. Naquele mesmo instante percebi que o que me separava daquilo que eu mais desejava era eu mesmo.

A lembrança da estória citada acima surgiu a partir de várias reflexões sobre anotações das aulas de Filosofia da Psicologia, ministradas pelo professor Marcos J. Müller-Granzotto. Após vários dias, uma “figura” (no sentido da Gestalt) finalmente surgiu, uma estória a respeito da jornada de cada um, do EU, do desejo e da loucura.
Para a Fenomenologia, o EU é construído no outro, ele não existe a priori, é uma construção a partir do outro. Para ela, a loucura é considerada incapacitante, as pessoas criam problemas para ir para a inatualidade, para fugir da realidade. O louco não se interessa em fugir da realidade, não cria problemas e, se ele não consegue ir ao transcendental, como viver fora da realidade?
Na Psicanálise, o louco também é alguém que não desperta o desejo. A realidade sempre se impõe a mim de uma maneira estruturada, eu olho a realidade e a realidade me traz o vazio. A realidade é um problema, afinal, qual é a estrutura que está alí? Assim, não se preocupa com a relação, mas com a estrutura. No desejo se está querendo entender o que o outro quer de mim. O desejo tem a ver com uma falha estrutural que demanda por regra. O louco não deseja, não se interessa e não busca, e, se ele não consegue se manter na realidade,não consegue lidar com a demanda ambivalente de regra e de gozo, como viver na realidade?
A “Psiquiatria Fenomenológica” de Karl Jaspers, no seu Manual de Psicopatologia (1913), adota uma postura epistemológica que faz uso de um objeto noemático, semelhante a uma esfera espelhada que reflete o infinito de relações. Esta estrutura se assemalha em muito ao exemplo que o “Buda” Sakiamuni, há aproximadamente 2600 anos atrás sobre as experiências de cada ser vivente neste mundo. Neste exemplo, o Buda coloca que cada ser humano pode ser visto como uma jóia, que reflete todas as outras jóias de todo o universo, ou seja, cada um de nós espelha a experiência de todos os outros, estando todos nós interligados (e interdependentes) e, nas relações podemos vivenciar todas essas imagens. No “budismo”, todo ser humano é um buda ainda que não reconheça esse estado, que só pode ser vivenciado transcendendo-se a ignorância básica de si mesmo, que é a identificação, justamente, com esse EU construído nas relações, separado dos demais, um EU que está identificado com o seu pensar. Vivenciar o que está além deste EU construído é a verdadeira liberdade, o verdadeiro acordar -- daí o termo Buda, “o acordado” -- só assim pode-se perceber a inteireza e a harmonia existente em tudo, antes disso, somente pensar e pensar, julgar e rotular, vivenciando indiferença, apego e aversão, desejo e repulsa, vez após vez, vivenciando somente esse EU construído, a barreira que separa cada um da experiência do todo, um ser oceânico. Lembrando mais uma vez da estória, na experiência da sede intensa, necessitamos dar o salto, ir além das imagens refletidas para saciar nossa sede.

“Quase Morto de Sede”



Certa vez perguntaram a Shibli, um mestre sufi:

P: Mestre, como você iniciou o seu caminho? Quem lhe indicou o caminho pela primeira vez?
R: Meu primeiro mestre foi um cão.
P: Como?
R: Estava observando um cão sedento à beira de um lago. Quando ele se aproximava da água, via sua própria imagem, rosnava e recuava. Assim ele ficou por muito tempo até que a sede era tanta que se jogou pra dentro do lago, a imagem desapareceu e o cão teve toda a água que precisava. Naquele mesmo instante percebi que a barreira entre mim e o que mais buscava era eu mesmo.

Esta pequena estória pode servir de fundo para o que podemos denominar fluxo de figura e fundo  e outros conceitos  da Gestalt.
O que pode impedir a pessoa de ver o óbvio, e, o que é o óbvio afinal? A isso a Gestalt chama de ZIN - zona intermediária (entre o indivíduo e o mundo) - impede o indivíduo de ver o mundo como ele é, impedindo-o de ver o óbvio. Um terapeuta vai trabalhar na ZIN, ela não deixa de existir mas, não pode intermediar tudo, toda relação. O que será que impede as pessoas de vivenciar o assim chamado “sagrado” do mundo, essa vivência do enlevo de estar vivo, a alegria nas pequenas coisas da vida?
Shibli fala de uma necessidade, de uma busca. Na Gestalt, a necessidade é algo em aberto que procura um fechamento, emerge na erlação organismo / meio, emerge no “campo”.
O que estava acontecendo naquele lago serviu de “fundo” para Shibli, delineando uma “figura” bem delineada, que foi o insight naquele momento. A figura destacou-se de forma clara do fundo, apresentando nitidez. Shibli teve tempo para conhecer os detalhes da figura e teve acesso ao fundo compatível.  Nitidez, tempo e acesso, as três condições necessárias para uma figura ser bem delineada. Se alguma dessas condições não estivessem presentes, a figura seria mal delineada ou ainda, cristalizada, e Shibli provavelmente veria um cão, somente um cão na beira de uma lagoa e nada mais. Várias pessoas poderiam presenciar a mesma cena citada na estória mas, certamente veriam ou experienciariam coisas diferentes, até mesmo bem discrepantes.
Para Shibli houve uma aprendizagem, uma reestruturação do “campo”. Não foi algo como um treinamento ou adestramento, mas fruto de um “estar atento”, plenamente atento, ou ainda, eu diria, um estado de “awareness” tão poderoso e transformador a ponto de mudar sua visão de mundo. Em várias tradições religiosas sempre houveram pessoas que ultrapassaram seus limites perceptuais a ponto de realmente verem o óbvio e não o fabricado em sociedade, intermediado pela ZIN, dando um salto de consciência.
Visto tudo isso, um convite a ler a estória novamente e perceber se houve alguma mudança :

Certa vez perguntaram a Shibli, um mestre sufi:

P: Mestre, como você iniciou o seu caminho? Quem lhe indicou o caminho pela primeira vez?
R: Meu primeiro mestre foi um cão.
P: Como?
R: Estava observando um cão sedento à beira de um lago. Quando ele se aproximava da água, via sua própria imagem, rosnava e recuava. Assim ele ficou por muito tempo até que a sede era tanta que se jogou pra dentro do lago, a imagem desapareceu e o cão teve toda a água que precisava. Naquele mesmo instante percebi que a barreira entre mim e o que mais buscava era eu mesmo.

Duvido que o leitor, neste momento leia de forma idêntica à primeira vez logo acima.

    Um grande prazer.

    Abraço,

    Oliveiros.